#95 Ana Sofia Pinho

24 agosto, 2017


É engenheira, designer e marketer com interesse em medicina e sustentabilidade. Entre o multitasking e os seus múltiplos projetos, Ana é aquilo a que muitos chamam de polímata, alguém que gosta de várias áreas, estuda e trabalha nelas profundamente. Pelo meio tem ainda tempo para promover eventos tecnológicos como o Startup Weekends ou o Rails Girls. 

Se este fosse o teu perfil de uma rede social o que escreverias na área 'Sobre ti’?
Uma engenheira que se tornou designer, depois marketer e agora trabalha nos RH em cultura, branding e impacto social. Pelo meio promove iniciativas de diversidade em tecnologia. Vivendo entre dois mundos: o imaginário e o real, tentando sempre trazer algo do mundo imaginário para o mundo real. Nota importante: o mundo imaginário inclui gelado ao pequeno almoço.

Engenheira, designer, marketer. Ao estilo do multitasking e multi-interesses da nova geração, poderíamos chamar-te de 'profissional híbrida'?
Acho que sim, mas na realidade o que sou é uma polímata. Uma polímata adora várias áreas, estuda e trabalha nelas profundamente, enquanto que um especialista, apesar de ter interesses noutras áreas, só se torna perito numa. Só na minha vida adulta é que descobri que era uma polímata e depois de tanta agonia que senti a tentar-me encaixar no modelo de “especialista”, foi um alívio rever-me neste modelo. Ser assim permite-me ser criativa e inovadora a um nível diferente, porque trabalho na interseção de várias áreas. Para além disto aprendo muito rápido e adapto esses conhecimentos a muitos cenários. Isto coloca-me numa posição interessante em termos profissionais, onde acabo por ser a ligação de vários departamentos.

O que encontras de tão fascinante no mundo das startups?
A possibilidade de mudar o mundo de forma mais rápida e poder fazer várias coisas completamente diferentes. Quando começas uma startup, regra geral tens de trabalhar em várias áreas porque tens menos pessoas, e se fores tu a começar, podes fazer um negócio à volta daquilo que te apaixona e que achas que ter um impacto positivo no mundo.

O que falta à comunidade tech feminina? Promoção ou valorização?
Penso que o problema não é só o que falta à comunidade tech feminina, mas sim à comunidade envolvente. Não nos podemos esquecer que a comunidade tech feminina está assente numa comunidade tech global e essa comunidade está assente na população em geral. Todos os preconceitos conscientes e inconscientes que temos na sociedade em relação a ser mulher e ao papel da mulher na sociedade permeiam a comunidade tech e a comunidade tech feminina também.
Falta muito à população em geral para conseguir apoiar a comunidade tech feminina, porque esta mudança não vai acontecer se o resto da população não participar. Por isso é tão importante a promoção e mostrar o valor de ter mais mulheres em tecnologia. Mas precisamos de ir para além da promoção e valorização, por exemplo, de que nos vale trazer mais mulheres para a tecnologia se depois o ambiente é tudo menos inclusivo e não têm sequer a oportunidade de progredir na carreira, receber o mesmo salário, ou sofrerem assédio no local de trabalho? Estes temas são desconfortáveis, mas têm de ser discutidos para serem resolvidos.
E a comunidade tech feminina precisa de ter uma consciência dessas limitações que vêm de trás. Um bom exemplo disto é que temos vindo a alargar o círculo de exclusividade, já que sem querer, muitas iniciativas acabam por promover a tecnologia para mulheres caucasianas do que para mulheres negras. Isto é um trabalho em várias frentes, é preciso ouvir mesmo, cultivar empatia e ter coragem para nos auto-analisarmos!

Na tecnologia a igualdade de género ainda está assim tão longe de acontecer?
Sim, está, mas já esteve mais longe. O trabalho que tem sido desenvolvido, apesar de haverem algumas iniciativas que não foram tão bem conseguidas, tem tido em geral um impacto positivo. Penso também que se tem vindo a cometer o erro de nos focarmos apenas em género quando o mais importante é termos uma comunidade tech diversa e inclusiva. 
Tal como Neil deGrasse Tyson afirma, a ciência e a tecnologia são os motores da economia da sociedade do futuro. Neste momento, a maior parte da comunidade tech é formada por homens caucasianos, mas eles só são cerca de 10% da população mundial. Aquilo que estamos a construir em tecnologia nos próximos anos vai definir a sociedade em que vamos viver nas próximas décadas e séculos, por isso não podemos esperar 100 anos para este problema se resolver sozinho.
Se não tivermos uma comunidade tech representativa da população mundial com poder de decisão, vamos ter sérios problemas. Actualmente já vemos alguns a acontecer, tal como os airbags que mataram mulheres e crianças porque a equipa que os desenvolveu era formada maioritariamente por homens. Ou então a Apple que construiu uma app que media todos os parâmetros de saúde exceto o período, e mesmo tendo recebido inúmeras críticas a nível mundial, demorou um ano a incluir este parâmetro.
Outro exemplo é o facto de no início, as câmaras fotográficas não serem capazes de captar o tom de pele das pessoas negras e por mais ridículo que seja, só se começou a mudar isto quando algumas empresas quiseram tirar fotos a chocolate. O assédio que vemos online em plataformas como o Twitter ou o Facebook também é o resultado desta falta de diversidade e inclusão. E o pior é que estamos a desenvolver projetos de inteligência artificial que por vezes acabam por assimilar todos estes preconceitos, machismo, xenofobia, racismo, etc.

Os teus gatos têm primeiro e segundo nome e apelido: Mia Sofia Pinho e Tiago Miguel Pinho. É para se sentirem parte da família ou para, ao estilo das mães, quando fazem asneiras poderes chamar pelo nome completo?
Família. E chamar pelo nome completo não resulta assim tão bem como se podia esperar. O Tiago responde a Ti, Tiago, ou qualquer coisa que eu lhe chame. Ele sabe simplesmente que eu estou a falar com ele. A Mia é completamente diferente, ela tem 13 anos mas acho que ainda não sabe o nome dela. E eles sabem quando estão a fazer asneiras! Basta sair da minha boca um “Mia” ou “Tiago” em tom de aviso, que eles param logo, ou então fazem de conta que não estavam a fazer nada como todos os gatos.

Podem encontrá-la aqui: 
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