#92 Madalena Martins

21 agosto, 2017


Madalena é designer e decidiu abraçar a arte popular portuguesa reinterpretando-a com humor. Conhecemo-la dos projetos 'Marias Portugal' e 'Bicho Sete Cabeças', para as quais desenha peças com uma forte identidade portuguesa e cuja produção manual tem uma grande componente social, sendo na sua maioria desenvolvida com reclusos e utentes de associações de apoio social.

Se este fosse o teu perfil de uma rede social o que escreverias na área 'Sobre ti’?
A inventar desde sempre! :) 

É fácil reinventar a nossa cultura? 
Ela é muito rica e inspiradora, está carregada de informação e histórias. O importante é conseguir captar tudo isso e encontrar um novo caminho, contemporâneo. Conseguir contar novamente a história mas enriquecida com criatividade e contexto. Passar a mensagem num novo formato ou com uma nova função. É o que mais adoro fazer, por isso para mim é fácil sim!

Houve receio quando começaste a trabalhar com reclusos? 
Desapareceu no primeiro instante, mal percebi que a vontade deles de fazer coisas novas estava ao mesmo nível da minha. Eu senti logo que com os reclusos conseguia concretizar as minhas ideias, eles perceberam que o trabalho criativo seria a melhor "fuga" que poderiam ter ali dentro. Até hoje as coisas têm funcionado com esta boa energia, o que é maravilhoso pensando no contexto de uma prisão.

Achas que o trabalho nas prisões humaniza os objetos que crias? 
Totalmente. Há um processo por detrás do objeto que lhe acrescenta valor. Não há muitas formas de reinserção dentro de uma cadeia, o trabalho é de facto uma delas e a criatividade é um estímulo muito positivo, valorizam-se como pessoas.

Alguns dos teus projetos partem de excedentes de produção de empresas que acabavam por ir para o lixo/reciclagem. Será o aplicar da máxima 'o lixo de uns é o tesouro de outros'? 
Neste caso é mais as empresas perceberem que o seu próprio lixo pode ser um tesouro, que um material depois de cumprir a sua função pode renascer noutro objeto e servir a própria empresa. 
É um processo verdadeiramente sustentável, mesmo pelo factor reinserção. Fecha-se um ciclo e nasce uma nova peça. 

Trabalhar em espaços públicos é o verdadeiro 'bicho de sete cabeças'?
Sim, é sempre um desafio! :) Como trabalho sempre uma ideia nova, um material diferente, há sempre alguma coisa que se descobre e aprende. O facto da minha formação ser design gráfico dá-me uma certa liberdade de regras (ou não-regras) e a ausência de vícios acaba por ser estimulante e criativa.

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Foto:
Rui Meireles

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