#89 Rita Andrade

18 agosto, 2017


É apaixonada pelos lugares sem mapa e pela linguagem gestual improvisada. A curiosidade de ver o mundo sempre esteve presente, mas foi quando fez o caminho francês de Santiago de Compostela a pé e de mochila às costas que Rita percebeu a quantidade de aventuras que há para serem vividas além fronteiras. Em 2011 foi sozinha à descoberta da América do Sul durante três meses e pouco depois juntava-se à equipa de líderes Nomad.   

Se este fosse o teu perfil de uma rede social o que escreverias na área 'Sobre ti’?
Curiosa inata sempre à procura de uma nova aventura, amante eterna da linguagem gestual improvisada e de descobertas sem mapa. A Rita é viciada em descobertas constantes motivada pela imprevisibilidade da estrada. Formada em publicidade criativa, alargou o seu portfólio ao design e à ilustração, mas foi nas viagens que descobriu um amor ainda maior e fez disso profissão ao tornar-se (orgulhosamente) líder Nomad de viagens de aventura, mostrando a, também eles, viajantes curiosos a diversidade cultural da Indonésia e do Sri Lanka. 

Dizem que o Caminho de Santiago é um caminho para a vida que ajuda à reflexão. Foi aí que percebeste que viajar seria o teu modo de vida? 
Não houve apenas um momento. Houveram, sim, vários momentos que me fizeram crescer como pessoa e depois como viajante, que me mostraram como poderia viver ainda mais feliz. Faz sentido? O Caminho de Santiago foi uma experiência incrível! Um mês a caminhar, em que ao fim de uma semana estava a desfazer-me de metade das coisas que no início pensava serem essenciais na minha mochila (precisamos de tão pouco, afinal!). Um mês dedicado ao caminho, ao presente, em que o que interessava era a beleza que ali estava a testemunhar, juntamente com as pessoas que ia conhecendo pelo caminho (fiz amigos que duram até hoje, após mais de 10 anos e apesar de morarmos em continentes diferentes). E posso dizer que tive a sorte de o fazer antes da loucura dos smartphones e da comunicação desenfreada e constante. Acho que hoje em dia é cada vez mais difícil estar só no presente e o caminho é essencialmente isso.

Viajar sozinha pela América do Sul foi o verdadeiro 'sair da zona de conforto'?
Sem dúvida! Das melhores coisas que já fiz. Quando o decidi fazer estava toda entusiasmada, mas na hora do voo senti um frio na barriga e perguntei-me se não estava a fazer uma grande loucura. Loucura ou não, cresce em mim a certeza de que foi uma das melhores decisões, senão a melhor, que tomei na vida. Aprendi que mais vale ir do que ficar parada apenas a sonhar com as possibilidades (ainda que nunca tivesse sido fã de ficar parada). Aprendi que sou capaz de bem mais do que tinha alguma vez pensado que seria. Aprendi que a cultura, as línguas, as paisagens não são um obstáculo mas sim um divertido e recompensador desafio. Que a maioria das pessoas são boas, que as surpresas e os inesperados fazem parte do caminho (e tornam-no até mais interessante), que o mundo é tão grande e sou feliz a explorá-lo. 
Foi também a primeira vez que me despedi de um trabalho considerado pela nossa sociedade como "seguro" e o troquei pela incerteza e o desconhecido. No final, foi uma grande e valiosa experiência e as memórias que saíram dela valem uma vida inteira.

Em cada viagem continuas a aprender sobre ti?
Sempre! As viagens fazem-nos sair da zona de conforto. Principalmente quando saímos da Europa e América do Norte e vamos para a América Latina, África ou Ásia: nem tudo funciona como é suposto, nem tudo acontece como planeamos, nem tudo é o que parece... Ou seja, há uma constante descoberta e aprendizagem e engane-se quem pensa que só aprendemos sobre o pedaço de mundo que estamos a explorar: aprende-se igualmente, ou até mais, sobre nós próprios. No meu caso certamente, pois sou capaz de bem mais do que pensava. Por exemplo, que não falar uma língua (em comum) não é limite à comunicação e que sou melhor em linguagem gestual improvisada do que alguma vez pensei. Cada viagem que fiz transformou-me sempre de alguma forma e é o que espero que continue a acontecer. A confiança em mim mesma, perder medos, desafiar-me a ir para além da minha zona de conforto isto tudo são coisas que vão crescendo em mim quando viajo. Conhecer diferentes culturas e conversar com pessoas de vários cantos do mundo dá-nos a capacidade de entender melhor o mundo em que vivemos. Esta descoberta interior é uma descoberta entusiasmante, e extremamente gratificante.

Viajar é uma arte ou a verdadeira arte está em conseguir empacotar tudo na mochila?
Há muitos tipos de viagem, e alguns acho que caiem mesmo na categoria de arte. Mas é tudo muito relativo. Até fazer a mochila pode ser uma verdadeira arte! Mesmo sabendo que o ideal para mim é caber tudo numa mochila de 50L, tenho sempre a tentação de levar mais do que preciso. Depois de tantas viagens, às vezes ainda pergunto a mim própria: "Precisas mesmo disso, Rita?". E claro, relembro-me vezes e vezes sem conta de que do outro lado do mundo também há supermercados e máquinas de lavar, caso seja necessário (e claro que será!). O caminho de Santiago é um bom exemplo de que realmente não precisamos de muito em viagem.

Afinal como é que se é quase raptada por um llama? 
Conheci o Chiclito nas ruas de Santiago do Chile, durante a minha aventura pela América do Sul em 2011. Foi amor à primeira vista. Eu quis tirar uma foto com ele e ele em troca (enquanto o seu dono tentava perceber como usar a minha câmara) quis fugir comigo em direção ao horizonte. Infelizmente o seu dono veio a correr atrás de nós e quebrou o sonho do Chiclito. Um momento muito divertido, mas fiquei com pena daquele llama que em vez de percorrer as paisagens da Patagónia ou do Altiplano, como vi alguns, fazia cara bonita na capital, para atrair turistas. Não foi o meu momento mais feliz, mas estamos sempre a aprender.

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