#81 Rita Vila-Chã

10 agosto, 2017


Ser arquiteta era um sonho de Rita desde os 6 anos mas ficar fechada numa sala a fazer projetos num computador não estava nos planos. Inspirada pelo curador da Serpentine Gallery, Hans Ulrich Obrist, abriu as portas da sua casa no 8.º Dto. Frt do edifício da Cooperativa dos Pedreiros, no Porto, e criou a galeria Oitavo.

Se este fosse o teu perfil de uma rede social o que escreverias na área 'Sobre ti’?
Rita, a pessoa que se ri de olhos fechados. Bem disposta e descontraída, gosta de concretizar algumas das muitas ideias que tem. Adora convívios à volta da mesa e viagens de carro.

Com a casa transformada numa galeria não receias que o voyeurismo ultrapasse os limites do aceitável?
Não. Estou à vontade em ter muitas pessoas em casa, sempre foi assim. O voyeurismo associado à descoberta da casa de alguém é um tema que sempre me entusiasmou porque, enquanto arquiteta e curiosa, me interessa perceber como é que as pessoas vivem e usam o seu espaço habitacional e, nesse sentido, quais são os seus hábitos. Não acho que o voyeurismo associado a uma visita à minha casa-galeria traga situações desagradáveis porque a conjugação dos factores não o permite: independentemente de estarem muitas ou poucas pessoas, a casa é pequena e isso não abre espaço a "divagações" que ultrapassem o aceitável. Apercebo-me que as pessoas que me visitam têm uma curiosidade saudável sobre o projeto e é isso que se torna interessante de explorar.

Qual foi a situação mais caricata que aconteceu com visitantes? 
Já tive algumas mas a que mais me surpreendeu foi a quantidade de antigos funcionários do Antigo Hospital Maria Pia que nos visitaram no decorrer da última exposição, nesse mesmo edifício. Tinha noção da importância da instituição mas não tinha noção do número gigante de pessoas que ainda se interessam pelo espaço e pelo futuro do mesmo. Durante os 15 dias da exposição pude pôr em prática conceitos que me interessam explorar na galeria, como a dinamização urbana temporária através de uma galeria itinerante. 

E os teus vizinhos? Não tiveste a polícia à porta?
Lembro-me que a primeira exposição teve tantas pessoas que não nos conseguíamos mexer. Quando me apercebi, não só o apartamento estava cheio como também o lobby; estava imensa gente a subir e a descer escadas e os elevadores deixaram de funcionar. Claro que os vizinhos não acharam tanta piada a isto como eu, mas não tivemos problema algum. 

A proximidade física ajuda à relação das pessoas com a arte? 
A galeria Oitavo explora a importância e a capacidade que os espaços "não convencionais" têm na exposição artística, que pode ser a minha casa, como um hospital em desuso, como foi o caso do Antigo Hospital Maria Pia. Usar espaços que não foram inicialmente desenvolvidos para serem expositivos e transforma-los nesse sentido permite uma relação mais rica entre as pessoas e a arte porque acrescentamos, entre muitos outros, um fator importante: a arquitetura.

Criaste uma galeria irrequieta e itinerante. É um reflexo de ti mesma?
Sim. Sempre fui muito interessada e sempre me entusiasmei pela concretização das ideias. Isso faz com que a maior parte das vezes a minha cabeça tenha mil projetos e ideias, aparentemente, mirabolantes, mas que me dão gozo realizar. E quanto mais "out of the box" mais interessantes se tornam porque me obrigam a questionar todos os pre-conceitos associados e a transformá-los num projeto coerente.

Podem encontrá-la aqui: 
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