#80 Patrícia Portela

09 agosto, 2017

Trabalha em teatro, dança e cinema sendo autora de performances, instalações transdisciplinares e obras literárias. Patrícia é reconhecida nacional e internacionalmente pela peculiaridade da sua obra que já lhe rendeu diversos prémios, entre os quais o Prémio Madalena Azeredo de Perdigão para Flatland I (2004) ou o Prémio Teatro da Década para T5 (1999) e Wasteband (2004). 

Se este fosse o teu perfil de uma rede social o que escreverias na área 'Sobre ti’?
“Ser ou não ser eis a questão,
Será mais nobre sofrer na alma
Pedradas e flechadas do destino feroz
Ou pegar em armas contra o mar de angústias
E, combatendo-o, dar-lhe fim?
Morrer; dormir;
Só isso. E com o sono – dizem – extinguir
Dores do coração e as mil mazelas naturais
A que a carne é sujeita; eis uma consumação
Ardentemente desejável. Morrer, dormir…
Dormir! Talvez sonhar. Aí está o obstáculo!
Os sonhos que hão de vir no sono da morte
Quando tivermos escapado ao tumulto vital
Nos obrigam a hesitar: e é essa reflexão
Que dá à desventura uma vida tão longa.
Pois quem suportaria o açoite
e os insultos do mundo,
A afronta do opressor, o desdém do orgulhoso,
As pontadas do amor humilhado,
as delongas da lei,
A prepotência do mando, e o achincalhe
Que o mérito paciente recebe dos inúteis,
Podendo, ele próprio, encontrar seu repouso
Com um simples punhal?
Quem agüentaria fardos,
Gemendo e suando numa vida servil,
Senão, porque o terror de alguma
coisa após a morte –
O país não descoberto, de cujos confins
Jamais voltou nenhum viajante
nos confunde a vontade,
Nos faz preferir e suportar males que já temos,
A fugirmos para outros que desconhecemos?
E assim a reflexão faz todos nós covardes.
E assim o matiz natural da decisão
Se transforma no doentio pálido do pensamento.
E empreitadas de vigor e coragem,
Refletidas demais, saem de seu caminho,
Perdem o nome de ação.”
Infelizmente as palavras não são minhas, nem sequer a tradução (de Millôr Fernandes). 

Trabalhar no cruzamento entre várias artes permite-te encontrar mais facilmente o meio certo para executar uma ideia? 
Sim, dá espaço para a flexibilidade dos meios e, consequentemente, dos fins. 

Muitos dos trabalhos que apresentas partem de uma pergunta. Quem assiste encontra respostas ou a reflexão vai connosco para casa? 
Não posso responder por outrém, mas eu levo a reflexão conjunta para casa, e recomeço sempre de novo no dia seguinte.

Seres 'inclassificável' enquanto escritora dá-te liberdade para explorar sem pudor a fronteira entre ficção e realidade? 
Acho que a liberdade já tem de lá estar para que alguém possa ser ser classificada de inclassificável, ou pelo menos espero eu que assim seja. Talvez, e por um outro lado, a classificação exista para nos mantermos vigilantes e à altura do que somos e queremos (ou não queremos) ser.

Que Portugal alternativo teríamos com um Acácio Nobre? 
Ai Se eu soubesse… ta ra ri ta ra ta ra ri ta ra ra…

Uma mesma pesquisa tua pode resultar em várias intervenções artísticas. O livro é causalidade da performance? 
Não, acho, e cada vez mais, que a nossa performance diária é uma “causalidade” dos livros: dos que lemos, dos que recusamos ler, dos que escrevemos, dos que ainda desconhecemos e temos de ler.

Podem encontrá-la aqui: 
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