#69 Carolina Pereira

29 julho, 2017


Carolina é uma change-maker, empreendedora social e surfista que acredita que a cidadania global pode atuar para mudar o mundo. É embaixadora internacional HeForShe (movimento das Nações Unidas para a igualdade de género), fundadora do MY Destiny, negócio social ligado ao surf, e co-fundadora da Wavemaker Collective, um 'encontro' de líderes mundiais onde a inovação social se junta ao mar. 

Se este fosse o teu perfil de uma rede social o que escreverias na área 'Sobre ti’?
Uff! Para mim, é sempre complicado definir-me e estou agora a trabalhar nesse processo. Posso definir-me somente como cidadã global? Somos todos, apesar de nos esquecermos disso. Não gosto de rótulos curtos apesar de entender que eles por vezes são necessários. Ora bem, diria que sou uma facilitadora para o Desenvolvimento Sustentável (sei que soa muito chavão, mas no fundo pode englobar tudo aquilo que faço profissionalmente) e surfista viajante. Também gosto da designação de "change-maker", que acredito ser algo que se encontra no equilíbrio entre a visão estratégica de um empreendedor e o coração de um puro ativista.

Somos o terceiro país com maior desigualdade de género. Mas este é daqueles 'top 3' em que não queremos estar... o que está a HeforShe a fazer nesse sentido?

O HeForShe tem, para mim, esse tal equilíbrio muito sólido que sempre procurei num movimento. Por um lado, é um movimento muito grass roots, de pessoas para pessoas, e isso é algo que valorizamos mesmo, como também algo com objetivos sérios. No fundo, o HeForShe alinha campanhas (que variam de país para país consoante as áreas onde, de acordo com as pessoas, essa desigualdade é mais sentida - em Portugal é a violência e o mercado de trabalho), com o Impact 10x10x10 que é um programa de ranking que visa comprometer Universidades, Estado e grandes Empresas a trabalhar para atingir objetivos muito concretos e mensuráveis em três ou cinco anos.
Ou seja, nós estamos muito perto das pessoas, através de campanhas, eventos como a Arts Week e várias iniciativas, como também temos uma forma estratégia "top-down". Somos um movimento muito recente em Portugal e neste momento estamos focados nas Universidades. Em seis meses estamos espalhados de Norte a Sul, com várias equipas sólidas. O José Fidalgo juntou-se como embaixador nacional e contamos com embaixadores locais para ajudarem a facilitar o trabalho, contando com mais de 5000 compromissos assinados pelos portugueses. Estamos agora a trabalhar para avançar com ainda mais estratégia, pois convém referir que todo o movimento é voluntário e nós fomos crescendo organicamente com as pessoas que contribuíram para tornar tudo possível.

Ter o selo de confiança da ONU no teu trabalho é...
Um grande voto de confiança e uma gigante oportunidade para crescer. A ONU faz um grande trabalho, nem eu tinha noção de quanto, e está recheada de pessoas muito profissionais que dão o seu melhor todos os dias. É incrível.
Teve um efeito repercussivo que não estava à espera. Parece que todo o restante trabalho que já tenho vindo a desenvolver há anos, seja o MY Destiny - organização da qual sou fundadora - ou outros projetos, tudo ganhou mais interesse. Claro que tudo continua a depender da minha dedicação e de mostrar resultados. O HeForShe em particular, é uma grande família espalhada pelos vários cantos do mundo e não só existe um grande espírito de partilha como de estar constantemente a querer fazer mais e melhor. É ótimo poder ter mais ferramentas e know-how mais acessível.
No geral, fez-me exigir mais de mim mesma e permitiu-me começar novos projetos pessoais com uma visão maior. Estou agora a aprender e trabalhar muito com os ODS (Objetivos de Desenvolvimento Sustentável) para lançar um novo projeto muito especial em breve, o The #GlobalGoals Boat.

Entre a escrita, o surf e o empreendedorismo qual é mesmo a tua 'onda'? 
O meu foco está muito no desenvolvimento sustentável e entender como é que podemos mudar o mundo de uma melhor forma. Soa cliché, mas é verdade e é algo que pratico diariamente. Adoro escrever, adoro surfar, adoro criar... e no fundo tudo aquilo que faço, seja estar agora a trabalhar num livro, seja a forma como vejo o Surf ou as viagens ou ajudar a implementar e escalar projetos, são tudo janelas e ferramentas para tentar compreender e impactar o mundo positivamente. Para outras pessoas pode ser a música, a culinária, a dança... só têm de olhar para essas paixões com uma perspetiva diferente.

O surf consegue mudar mentalidades?

Sem d´vida! A base do MY Destiny surge de uma premissa muito simples: o Surf é uma ferramenta com um potencial gigante para mudar vidas. O Surf, num todo. Ou seja, o estilo de vida, a cultura, as metáforas que se aplicam à vida, os valores que aprendemos... é sem dúvida um ingrediente muito especial. Nós não olhamos para o Surf como desporto mas sim como uma metodologia de educação - se assim lhe podemos chamar. E temos várias histórias com backgrounds completamente diferentes, nas quais o Surf teve um papel importante.
Seja na Indonésia ou Brasil quando é utilizado como ferramenta de consciencialização ambiental em que as crianças e jovens filhos de pescadores, que por norma acabam por ir por maus caminhos, acabam por se tornar embaixadores da preservação do ambiente, dos oceanos, da proteção da sua praia para seu bem e da sua comunidade... seja na Índia funcionando como quebra-gelo e ajudando mulheres que sofreram de ataques de ácido a sentirem-se merecedoras de prazer. Estamos muito dedicados a explorar e entender melhor como é que podemos, de facto, utilizar o Surf como veículo de mudança.

O movimento eco-social veio para ficar?
Gostava de dividir a resposta em duas partes: primeiro, e para quem não está tão por dentro do tema, dizer que existem as organizações sem fins lucrativos e existem os negócios sociais que geram lucro e resolvem problemas. Na minha opinião, tanto um modelo como o outro podem funcionar bem e ter muito impacto positivo, mas pessoalmente interesso-me mais pelo segundo, os negócios sociais. Acredito que o mundo deve caminhar nessa direção e que ter impacto positivo ambientalmente ou socialmente não deve ser igual a abdicar de lucro. Gostava também de vir a contribuir para provar que é possível a evolução dos negócios nessa direção, para um mundo melhor, e que não é necessário depender de caridade, fundos ou patrocinadores por exemplo.
Depois... se o empreendedorismo social é uma moda, bem, de certa forma sim, mas espero que seja daquelas que venha para ficar. Isto é, há uns anos os empreendedores eram os "nerds" mas agora são cool, e eu que gosto sempre de ver o copo meio cheio, acredito que isso deu muitas oportunidades a muitas pessoas de não só mudarem as suas vidas, encontrarem um propósito, como também de mudarem as vidas dos outros! É claro que existem muitos casos em que as pessoas acabam por deturpar o conceito porque não são empreendedores sociais genuinamente e fazem-no pelas razões erradas, mas isso existem em todas as áreas, não é justo - nem sequer realista - pintar tudo de uma só cor e criar um mau estereótipo baseado nessa minoria. Resumidamente, é algo que vamos poder ver a ganhar terreno na economia e é algo para o qual todos devemos contribuir... devemos promover mais e melhores negócios sociais, esse é o caminho.

Podem encontrá-la aqui: 
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