#65 Micaela Sousa

25 julho, 2017


É cientista de formação mas decidiu fazer uma pausa na Ciência e trocou o laboratório e a universidade pelas câmaras fotográficas. Micaela vive em Berlim, é responsável pelo projeto Nomadic by Choice e está entre os 20 melhores fotógrafos do Instagram na Alemanha. 

Se este fosse o teu perfil de uma qualquer rede social o que escreverias na área 'Sobre ti’?
"I don't know" is where discovery starts. 

Pode-se dizer que és uma cientista que (re)nasceu fotógrafa? 
Pode dizer-se que houve um processo transformador, baseado em acontecimentos negativos, que mudaram o meu coração mais do que qualquer sonho que eu poderia ter se tornar realidade. Conseguir expressar o que de tão complexo existia dentro de mim através da fotografia, ajudou a compreender-me melhor. Acima de tudo mostrou-me o quanto a dor é fundamental para o crescimento; dolorosamente bonita, até. 

O Instagram ainda tem o mesmo encanto que tinha quando começaste? 
Os social media superaram praticamente todas as outras formas de marketing e, rapidamente, tornaram-se num factor dominante nas vidas de grande parte da população, especialmente os fotógrafos. O uso de plataformas como o Instagram, na minha opinião, sofre de algumas implicações que podem ter um fator limitador na qualidade do trabalho que um fotógrafo cria. Por um lado, exige atenção constante da nossa parte e por outro, pode oferecer o tipo de crítica errada quando essa mesma é tudo exceto uma combinação de experiência e motivação. 
O Instagram é inebriante devido à natureza imediata das interações. Eu deixei de sentir essa afinidade e, eliminei os aspetos que se tornaram mais numa âncora do que em um trampolim. Isso refletiu-se na forma como tenho vindo a usar a plataforma durante os últimos 18 meses; uma mera ferramenta de divulgação do meu trabalho. 

A segurança é inimiga da criatividade? 
Sim. A arte, tal como a vida, é cheia de riscos. A insegurança dá-me a oportunidade de aprofundar a minha compreensão do porquê estar a trabalhar numa determinada narrativa visual. De querer que o público experiencie aquilo que estou a sentir. De querer que as minhas fotografias mudem comportamentos, estimulem uma sensação de urgência que motive a ação humana e que, acima de tudo, suscitem questões. 
O momento em que me sinto segura em relação a algo em que estou a trabalhar faz-me perceber que não estou a trabalhar no que deveria e, que está na hora de seguir um caminho novo. As minhas melhores criações surgem exatamente de um cenário em que a segurança não figura.

O acto de fotografar deve ser pensado? 
O meu trabalho, possivelmente resultado do meu background em ciência, assenta muito em observação. No meu caso, a fotografia é sempre pensada antes e depois de fotografar. Desta forma, evito tirar fotografias desnecessárias que fazem diminuir a clareza do meu objetivo inicial.

Fotografar Portugal está nos planos? 
Existem já alguns projetos (pessoais) fotografados em Portugal. Nem todos foram ainda revelados. Muitos ficam a maturar na minha cabeça à espera de validação.
O "Project 47. Portugal - the map of my story", iniciado no verão passado, pretende explorar as minhas raízes enquanto Portuguesa e que definem a minha história. O projeto conta ainda com uma outra vertente que reflete quase uma visão do que é ser turista no (meu) país de origem, dado que Portugal já não faz parte do meu dia-a-dia há mais de 9 anos.
Existem outros dois projetos, mais complexos, cuja abordagem foi completamente nova para mim. Ambos assentam em fotografia documental. Um deles, iniciado há um ano atrás, retrata um fenómeno económico muito específico. O outro, tornou-se muito mais pessoal, porque a narrativa visual inicial transformou-se como resultado de um acontecimento trágico. A fotografia tem isso de bom, ser capaz de derrotar o tempo e manter vivo um momento na história para quem vem a seguir.

Podem encontrá-la aqui: 
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