#64 Sílvia Coimbra

24 julho, 2017


Um euro doado equivalia a um metro e no final os 5.895 metros de altitude que a separavam do topo do Kilimanjaro, o ponto mais alto de África, foram atingidos com a solidariedade de 136 pessoas. Sílvia lançou a campanha Climb for Kids para apoiar a construção de uma escola para crianças sírias refugiadas no Líbano e o objetivo foi largamente alcançado. 

Se este fosse o teu perfil de uma rede social o que escreverias na área 'Sobre ti’?
Apaixonada por um mundo autenticamente livre. Ironicamente óbvio. Eternamente insatisfeita, quero ‘sentir tudo de todas as maneiras’. Há muito tempo deixei de me tentar definir porque cada momento, cada pessoa e cada lugar constroem um bocadinho de mim.

Como correu a viagem ao Líbano? 
Foi muito bonito. E triste  como só as coisas infinitamente belas o podem ser. Precisei de alguns dias para processar tudo o que vivi. Mas foi muito bom ver a escola construída, as crianças a aprender e ter a certeza absoluta que aquelas crianças são hoje um bocadinho mais felizes porque 136 pessoas com corações enormes decidiram ajudar.

Qual é a sensação de receber o carinho e agradecimento das crianças que ajudaste? 
O bonito do carinho das crianças é que não chega em forma de agradecimento, vem de dentro. Dos seus coraçõezinhos transparentes e autênticos; dos seus sorrisos e abraços; e da ingénua felicidade de viver. A energia de esperança e alegria que se sente dentro da escola é tão diferente do resto do campo de refugiados em que a escola está inserida. Naquele lugar existe um bocadinho de paz ainda que temporária e limitada.

O dinheiro que angariaste está aplicado num recreio na escola de Jarahieh mas este não é um recreio qualquer, certo? 
O dinheiro ajudou na reconstrução da escola de Jarahieh, que antes era apenas um conjunto de tendas sem quaisquer condições de aprendizagem e bem-estar. A Catalytic Action reconstruiu a escola com uma abordagem muito interessante, envolvendo a comunidade (criança, professores e habitantes do campo de refugiados) em todo o processo desde a concepção à construção. Assim, as pessoas deixaram de ser apenas o beneficiário do projeto e passaram a fazer parte dele.
Para além disso, a escola tinha como objetivo ser funcional — criando as infra-estruturas básicas para aprendizagem  mas também emocional, criando um espaço de segurança e liberdade onde as crianças pudessem voltar a brincar depois de terem sido obrigadas a fugir da guerra e do seu próprio país. 

Subir o Kilimanjaro tem um maior grau de dificuldade técnica ou psicológica? 
Diria 10% técnica e 90% psicológica. Acho que qualquer pessoa que o decida fazer, consegue de certeza. No meu caso, os 10% técnicos nem se podem chamar bem técnicos. Eu já corria e comecei apenas a correr distâncias um bocadinho mais longas (máximo 12km) e a incluir mais subidas e descidas. A certa altura as pessoas começaram a perguntar-me o que é que acontecia se eu não chegasse lá em cima. Fiquei um bocado confusa, ri-me e disse “isso nem é uma opção”. Na minha cabeça, no início da campanha, já tinha decidido que ia chegar lá em cima por isso nem me questionava sobre isso.

Sete dias, seis mil metros, seis mil euros. Experiência a repetir? 
Achava que ir visitar a escola um ano depois ia ser o fechar de um ciclo. Mas foi exatamente o contrário, agora parece que foi apenas um pequeno início com ainda tanto para fazer pela frente. Por isso, não sei se a mesma experiência ou outra, mas certamente muitas outras coisas virão.

Podem encontrá-la aqui: 
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