#60 Rita Moreira

20 julho, 2017


Trabalha em Lisboa, mas poderia fazê-lo em qualquer parte do mundo porque não falta quem a procure. Rita, ou Nouvelle Rita, é tatuadora e os detalhes multiplicam-se no seu trabalho com formas geométricas e muitos animais. 

Se este fosse o teu perfil de uma rede social o que escreverias na área 'Sobre ti’?
Eu tendo a não falar muito sobre mim mesma e deixo que o meu trabalho fale por si próprio, mas se tivesse que escrever alguma coisa escreveria algo do género "tatuadora portuguesa com fobia a planos, que anda sempre de um lado para o outro e nunca sabe muito bem o que é que anda a fazer, ou onde vai estar amanhã. Tem jeito para conquistar gatos".

Tatuagens... mais que uma profissão, é uma vocação? 
Para mim mais que uma profissão, é uma paixão e uma dádiva. É muito mais que uma profissão, tatuar permite-me fazer o que adoro, conhecer pessoas e lugares novos e fantásticos enquanto o faço e de vez em quando sentir que não mereço tamanha sorte. Mas é um trabalho de grande responsabilidade e faz-me sentir ao mesmo tempo que tenho que estar em constante movimento, para poder chegar a toda a gente (o que é impossível, mas pelo menos vou chegando a mais pessoas aos poucos).

Tens um estilo muito autêntico reconhecido internacionalmente, mas em início de carreira onde conseguias encontrar 'beta testers' que entregassem, literalmente, o corpo à tua arte? 
Quando comecei a tatuar comecei logo a fazer o tipo de trabalho que faço agora (claro que entretanto já houve uma evolução muito grande).
Acho que, como toda a gente que começa a tatuar, é como atirar uma pedra para um lago. Os meus primeiros "clientes" foram os meus amigos, a minha mãe, depois começaram a chegar amigos de amigos que gostavam do que eu fazia. As ondas foram alargando até que comecei a ter pessoas que não tinham ligação a amigos ou a amigos de amigos.

A tatuagem é um acessório de moda? (Não será redutor dizer isto?)
A tatuagem acaba sempre por ser um objeto de adorno pessoal, é assim desde o início da sua história. É também um objeto que conta um pouco do caminho daquela pessoa mesmo que não a conheçamos. Tenho a sensação de que muita gente não gostaria de pensar na tatuagem que esteve a imaginar e pela qual esperou meses e até anos, como um acessório de moda, porque isso lembra muito uma clutch ou um par de sapatos, e nesse sentido talvez seja uma definição um pouco redutora porque uma tatuagem é muito mais que isso.
Não acho que haja qualquer problema em se fazer uma tatuagem simplesmente pela estética do objeto. Uma tatuagem muda, muitas vezes, completamente a maneira como alguém se vê a si mesmo e isso é um impacto muito maior do que qualquer acessório de moda poderia ter.

As caras passam mas a história de cada tatuagem fica? 
Sim, completamente. O meu cérebro deixou de tentar lembrar-se de nomes ou de caras há algum tempo, o que me chateia um bocado porque sinto sempre que estou em dívida para com toda a gente por não me lembrar. Mas se me mostrarem a tatuagem lembro-me logo do que falamos e de certas coisas que se passaram naquele dia ou quando estava a desenhar para a pessoa. Iria estar a mentir se dissesse que me lembro de todas as tatuagens que já fiz, mas lembro-me da maior parte e já fico contente com isso.
Em minha defesa costumo dizer que normalmente não estou a olhar para a cara da pessoa enquanto a estou a tatuar (o que é verdade).

Tattoo ou tabu? Por cá ainda mora o bom e velho preconceito? 
Sinto que cada vez mais o preconceito vai morrendo aos bocadinhos. Claro que ainda continua a existir, mas até na geração de pessoas mais velhas começa a mudar (a minha avó disse um dia que queria que eu a tatuasse, e ela não gosta de tatuagens).
Muitas vezes as pessoas que têm preconceitos sobre tatuagens não estão bem informadas do processo ou até do tipo de estilos de tatuagem que existem, e todo o negativismo vem do facto de "tatuagem" estar para elas envolta num nevoeiro de mistério e rumores. Mas como com todo o preconceito, um pouco de informação e contacto com o assunto pode fazer toda a diferença.

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Foto: 
Lais Pereira
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