#50 Sara Barros Leitão

10 julho, 2017


Podemos vê-la regularmente em televisão e cinema e o seu trabalho já lhe valeu várias nomeações e prémios, mas é no teatro que se sente completamente feliz. Sara desdobra-se entre o trabalho como atriz, a direção artística no projeto Carruagem e a contínua formação. 

Se este fosse o teu perfil de uma rede social o que escreverias na área 'Sobre ti’?
Porto, 1990. 
Filha, neta, amiga. 
Atriz, estudante, leitora, espectadora, cidadã atenta, feminista, politizada, ativista. 

Quando é que percebeste que querias contar histórias? 
Não sei se sei responder a esta pergunta. Suponho que por "contar histórias" te estejas a referir a "ser atriz", porque na verdade eu nunca quis contar histórias ou ser atriz. Além disso, não acho que o teatro seja o mesmo que contar histórias. Muitas vezes as duas coisas acontecem em simultâneo, mas eu acredito que o teatro é um lugar que promove o pensamento, que apela à reflexão, que resgata o silêncio, que estimula a concentração, que cria empatia, que te faz conhecer o outro, reconhecer o outro, sentir amor por ele, entendê-lo. No teatro não precisa de haver história ou palavra. Os espetáculos não têm que ter uma narrativa, não têm que fazer sentido. Podem ser políticos, podem servir para te entreter, podem-te fazer pensar, podem ser um jogo de códigos para tu desvendares... Por isso não me identifico com ser contadora de histórias. Eu faço teatro porque faz sentido para mim, mas podia fazer outra coisa qualquer. Faço e penso em teatro desde criança. Fiz parte de dois grupos de teatro amador ao mesmo tempo. Tudo o que via ou lia, me fazia pensar como é que eu podia desenvolver aquilo em palco. Quando dei por mim, fazia sentido ir estudar teatro. Adoro estudar e ponho-me a ler as coisas mais diversas, no entanto, a minha cabeça está sempre a fazer pontes com as artes performativas, a tentar usar a literatura, a história, a ciência para servir o teatro e acho que é por isso que sou tão feliz a trabalhar como atriz. Cada projeto me obriga a estudar uma coisa diferente, a ter novos interesses, a estar em constante desenvolvimento. É esse sentimento de me querer deitar a saber mais do que quando acordei que me faz sair da cama todos os dias. Se é no teatro que encontro o sítio para poder fazer isso, então é por isso que sou atriz, dramaturga, encenadora, criadora. 

Estigmas à parte, os Morangos com Açúcar foram uma boa escola? 
Não tenho qualquer estigma em relação ao trabalho que desenvolvi no projeto "Morangos com Açúcar". Foi o meu primeiro trabalho profissional, estava no segundo ano do curso de Interpretação, e não foi uma coisa que eu quisesse ou procurasse. Foi uma oportunidade que apareceu e, como tudo na vida, as oportunidades são aquilo que fazemos delas. Eu decidi que queria fazer daquela oportunidade mais um lugar para aprender, ganhar experiência, errar, observar. Foi exatamente isso que aconteceu. O preconceito sempre foi das coisas que mais me incomodou, desde criança. Obviamente que tenho imensos preconceitos que me foram impostos pela educação desta sociedade ocidental, e que muitas vezes se manifestam no meu comportamento quotidiano, mas o importante é estarmos sempre atentos para percebermos quando estamos a ser preconceituosos, e mudarmos isso. Os "Morangos com Açúcar" vivem debaixo do preconceito e quando fui convidada e recusei imediatamente, percebi que estava, eu própria, a alimentar esse estigma. Rapidamente percebi que devia aceitar, experenciar na pele o que seria aquele processo de trabalho antes de tecer considerações, e tirar o melhor dali. Ainda bem que fiz isso, pois sei que hoje sou melhor pessoa e actriz graças àquele ano e meio. 
No entanto, sinto que já foi há tanto tempo que não faz sentido continuar a falar disso em todas as entrevistas. Já passaram dez anos, já fiz tantos trabalhos, já passei por tantas experiências, que li tantas coisas, já estudei outras tantas, os meus interesses e opiniões já mudaram tanto que é como pedir a um profissional qualquer que esteja sempre a falar do seu estágio onde servia cafés, tirava fotocópias e fazia relatórios. Os "Morangos com Açúcar" foram uma excelente escola, se voltasse atrás fazia tudo igual, mas passo muito mais tempo a pensar no que vem para a frente, na quantidade de coisas que quero fazer, viver, ler. 

Aos 16 anos como é que se lida com a crítica e o reconhecimento público? 
Eu sempre tive muito claro na minha cabeça o que tinha ido fazer para Lisboa: fui trabalhar e aprender. E também era muito claro para mim que, mal pudesse, iria voltar para o Porto para terminar o meu curso de Interpretação. Não tive televisão durante os primeiros cinco anos e raramente via o resultado do que gravava. Continuei a fazer a minha vida normalmente, ia ao teatro, à biblioteca, ao supermercado. Nunca me interessou o reconhecimento público, nunca o procurei e por isso, ele nunca apareceu. Quando fazes televisão tens que escolher que caminho queres seguir: porque sou atriz, faço televisão, não sou atriz porque faço televisão. Quando saía do estúdio ia para casa, usava o dinheiro que ganhava para ir ver exposições, para ver filmes, para comprar livros, para fazer formações com pessoas que admirava, etc. Nunca me meti em festas, entrevistas, programas, e, talvez por isso, a crítica e o reconhecimento público passavam-me ao lado. Faziam parte de um mundo que eu não frequentava. Acho que ainda hoje sou assim. 

Os 40 cêntimos na conta são a realidade de muitos atores em Portugal? 
Em relação aos quarenta cêntimos, permite-me explicar o seguinte: eu não dou entrevistas para nenhuma revista cor-de-rosa. Raramente dou entrevistas para os grandes meios de comunicação. Só o faço quando assino contratos de trabalhos que me exigem colaborar na divulgação e comunicação dos projetos que estou a fazer, e, às vezes, isso passa por dar entrevistas a esses meios. Caso contrário, não o faço. Acredito e respeito muito mais projetos como o teu! A história dos quarenta cêntimos não foi, por isso, resultado de uma entrevista. Longe de mim dar uma entrevista assim! Eu tenho uma página profissional, onde escrevo sobre o meu trabalho e as pessoas que a seguem, à partida, querem ler sobre aquilo. Nesse sentido, escrevi um pequeno texto que fazia uma reflexão sobre os últimos dez anos do meu percurso. Nesse texto referi muitas coisas: desilusões, conquistas, dificuldades, falei sobre o que estudava, falei dos sítios onde trabalhei, das pessoas que gostava... Tentei desmistificar o que é ser ator, e denunciei o endeusamento que se faz a certas figuras, não pelo seu intelecto ou seu contributo para a sociedade, mas apenas por aparecerem na televisão e serem famosas (que é um assunto que dá alguma comichão). Esse texto começou a ser muito partilhado porque as pessoas se estavam a identificar com aquelas palavras. Nessa tarde, um grupo que tem várias revistas, contactou-me para dar uma entrevista sobre o texto que escrevi e para falar mais sobre estes dez anos. Recusei de imediato com a certeza que aquele convite significava que eles não tinham percebido o texto que escrevera. E não tinham mesmo. Passado umas horas sai uma "notícia" online com o título "Tive quarenta cêntimos na conta por demasiadas semanas", que é rapidamente copiada por outras revistas e jornais. Passado três dias, sai uma capa de revista com o título "Atriz revela dias de miséria". 
Tudo isto é, no mínimo, insólito. Os quarenta cêntimos foram uma espécie de recurso estilístico usado no texto para fazer diversas comparações entre os momentos que estamos francamente bem e logo a seguir desesperadamente mal. Sim, já tive várias vezes quarenta cêntimos na conta, mas no dia seguinte estava à porta de um café a procurar trabalho, ou a abrir portas no Estádio do Dragão, ou vestida de mascote a entregar panfletos. Isso não é "revelar dias de miséria", é dizer que a vida dá muitas voltas, que não devemos tomar nada por garantido, e que temos que lutar, atirar-nos de cabeça, seguir os nossos sonhos e lavar escadas pelo caminho. 
A atitude que essa revista (e outras) tiveram perante o que escrevi é profundamente desrespeitosa, pois adulteraram por completo o sentido das minhas palavras, quando nem sequer lhes foi autorizada uma entrevista! Na altura fiquei bastante revoltada perante a impotência em que te deixam. É uma sensação horrível usarem-te, manipularem o que disseste, fazerem-te de mártir quando na realidade essa é a última coisa que eu sou! Mas, de repente, pensei: "A pessoa que fez isto, deve ser profundamente infeliz. Acredito que ninguém tem o sonho de trabalhar num sítio assim, esta pessoa deve ter sonhado, em tempos, ser jornalista, fazer notícias a sério, mudar o mundo. E, tal como os atores, a precariedade tomou conta do mercado e este jornalista acabou por ter que fazer este tipo de jornalismo desonesto e sem conteúdo." 
O que me interessa é usar a voz que tenho para falar de coisas verdadeiramente importantes: é importante falar sobre a condição dos artistas em Portugal, é importante falar sobre o modelo de apoio às artes, é importante falar sobre a precariedade nas artes performativas. É importante organizarmo-nos, sindicalizarmo-nos, associarmo-nos às várias redes que existem. É importante irmos às reuniões, aos encontros, discutirmos, ouvirmos, pensarmos. Encontrar soluções, desenvolver propostas, entregar essas propostas, fazer pressão para que sejam ouvidas. 
Sim, os quarenta cêntimos são a realidade de quase todos os atores em Portugal e temos que começar a não ter medo de falar sobre isso. Temos, pelo contrário, de arregaçar as mangas e ir à luta. Temos que deixar de aceitar trabalhos mal remunerados, temos que fazer uma tabela salarial de referência. Temos que ir ver mais espetáculos e ser os primeiros espectadores dos nossos colegas. Temos que viver com a urgência de salvar o mundo em vez de fazermos maus títulos de notícias nem sequer são notícias. 

A Carruagem permite-te explorar o outro lado da moeda?  
Sim, se bem que é um bocadinho desonesto da minha parte falar de "direção artística" num projeto como a Carruagem. Não temos orçamento para fazer praticamente nada. A verdade é que ainda não começámos a concorrer a apoios porque ainda não nos sentimos maduros o suficiente para isso. Por isso a Carruagem é mais um projeto pessoal do que profissional. É lá que aprendo a fazer candidaturas, contabilidade, a lidar com burocracia. Aprendo a lidar com instituições públicas como Câmaras Municipais, Juntas de Freguesia, escolas... Aprendo a fazer projetos do nada e com nada. Aprendo a procurar formas de financiar os projetos. Aprendo a fazer teatro em qualquer parte. Aprendo a montar e limpar projetores, aprendo a fazer produção, aprendo a trabalhar em equipa. No fundo, a Carruagem serve para desenvolvermos e produzirmos os projetos que queremos (e conseguimos), mas sobretudo, para nos preparar como criadores, encenadores, produtores, para nos dar experiência, para que um dia nos possamos começar a arriscar em projetos mais ambiciosos. 
Há coisas que ninguém te vai ensinar a não ser que passes pela experiência, e, para isso, é preciso, muitas vezes, criar as tuas próprias oportunidades. Não gosto de fazer nada para acertar. O erro é extremamente importante, sobretudo na criação artística. Por isso, precisámos de criar um espaço onde pudéssemos arriscar, errar, discutir. Como ninguém nos dava isso, criámos a Carruagem, que é esse lugar.

Podem encontrá-la aqui: 

Foto:
Pedro Santasmarinas
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