#46 Ana Rita Duarte

06 julho, 2017


É investigadora e tem centrado o seu trabalho nas 'tecnologias verdes', na procura de opções sustentáveis que diminuam o impacto dos processos industriais no ambiente. Rita acabou de conseguir para Portugal uma das mais importantes bolsas internacionais: são dois milhões de euros atribuídos pelo Conselho Europeu de Investigação para continuar a sua pesquisa.

Se este fosse o teu perfil de uma rede social o que escreverias na área 'Sobre ti’?
Sou a Rita, sou cientista, sou curiosa, sou hiper-ativa. Não consigo estar sossegada…

Porquê a química verde?
Em 1996 as Nações Unidas definiram desenvolvimento sustentável como aquele capaz de suprir as nossas necessidades sem pôr em causa as necessidades das gerações vindouras. E a química verde é um dos pilares deste desenvolvimento sustentável. É preciso desenvolver métodos alternativos, mais limpos, mais eficientes, a partir de matérias primas renováveis, com menos produção de resíduos para não comprometermos os recursos necessários para futuras gerações. É nesta base que tem assentado o meu trabalho de investigação. Tentar perceber como é que solventes alternativos podem ser tão ou mais eficazes que os convencionais derivados de petróleo.

Dois milhões e cinco anos para responder a uma pergunta. Acusa-se pressão para apresentar resultados quando há estes números envolvidos? 
Sim. Naturalmente o facto da Comissão Europeia ter acreditado no projeto e na equipa e de o ter financiado com este valor faz com que tenhamos uma responsabilidade acrescida. Mas a pressão existe sempre, a partir do momento em que nos propomos a responder a uma determinada pergunta. Muitas vezes a pressão é exercida por nós próprios porque não descansamos enquanto não descobrimos o resultado daquilo que queremos provar.

Ir para fora ajuda a conseguir Bolsas cá dentro?
Ir para fora ajuda principalmente a aprendermos mais, a alargar horizontes, a conhecer novos métodos de trabalho, a trabalhar com pessoas diferentes, a trabalhar a nossa capacidade de adaptação. Tudo isto ajuda a reunir condições para ter mais possibilidades de ganhar, mas não é condição sine qua non.

Há quem diga que para se ser investigador em Portugal é necessário uma boa dose de loucura. Tens em ti algum pedacinho de 'Victor Frankenstein'?
Temos que ter sempre um bocadinho de loucura. A partir das ideias que possam parecer mais absurdas às vezes nascem grandes descobertas. Se não nos atrevermos a fazer perguntas mirabolantes não saímos da zona de conforto e não progredimos. Mas os cientistas não são pessoas maluquinhas de cabelo em pé, são pessoas com a dose de loucura q.b. e uma enorme paixão por aquilo que fazem.

O que nos falta para termos uma verdadeira 'cultura científica' por cá? 
É preciso que a sociedade perceba o valor que pode ser gerado a partir da investigação cientifica. É preciso que os cientistas transmitam o quanto trabalham tão arduamente como qualquer outra pessoa na sociedade. É preciso que a sociedade acredite que trabalhamos para gerar conhecimento que será de todos. É preciso criar condições de emprego que incentivem os jovens a querer seguir uma carreira científica. E a nós cientistas cabe um papel importante para desmistificar a perceção que a sociedade tem da ciência que por cá se faz, que está ao nível de qualquer outro país.

Podem encontrá-la aqui: 
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