#45 Cristina Morais

05 julho, 2017


Cristina é natural das Terras do Demo, na região do Alto Paiva. Contrariando a desertificação, regressou ao interior do país à procura de oportunidades, em terras onde se pensa não existir nada e os invernos são mais rigorosos. Designer de profissão, co-fundou o Colectivo de Melhoramentos e é a Moimenta da Beira que desde então chegam as nomeações e prémios internacionais, o último dos quais na edição do Selected Europe, em Bilbao. 

Se este fosse o teu perfil de uma rede social o que escreverias na área 'Sobre ti’?
Mum. Designer. Seeker. Rural and proud.

O que é que o interior tem que o litoral só ganhava em ter? 
Podia dizer o slowliving, mas isso é uma atitude, uma opção de vida que podes ter em qualquer lado. Talvez o vazio que leva ao tédio e é neste espaço que muitas vezes coisas bonitas acontecem. E todas aquelas coisas que as pequenas vilas têm: não teres filas, não te preocupares com o estacionamento, ou melhor, andares a pé para todo o lado, uma piscina municipal ao fim do dia vazia só para ti, uma imensidão de natureza…

Viver longe das grandes cidades trouxe alguma limitação ao teu trabalho? 
Quando aqui cheguei não tinha trabalho, tive de o criar. O design ainda é visto como uma coisa cosmopolita, um termo pomposo e impronunciável, arrisco a dizer que a maior parte das pessoas não sabe o que faço. Dá para perceber as limitações? No entanto, têm aparecido aqui boas oportunidades de trabalho das quais me orgulho muito de ter participado, embora a maior parte das coisas que faço são para clientes das cidades.

A desertificação assusta-te? 
Muito mesmo. Inquieta-me e entristece-me. Vivo num sonho romântico que ao continuar aqui posso reverter a situação, mas sozinha não posso! Viver no interior é muitas vezes aborrecido, já não é solitário porque temos acesso ao mundo como qualquer pessoa do séc. XXI, mas acho que para reverter a situação têm de haver políticas urgentes de fixação de pessoas, e isso faz-se com a ajuda na criação de emprego, com a dinamização e aproveitamento dos recursos locais, têm de ser políticas ao nível dos municípios e não esperar que elas venham de Lisboa. No entanto há muita gente a remar contra a maré e criar projetos muito interessantes por esse interior fora que me enche de esperança e me dá fôlego para também eu continuar.

No Colectivo de Melhoramentos crias peças à mão com matérias primas locais. Há uma maior procura pelo 'orgânico'? 
Felizmente. Deve-se talvez ao consumo consciente, à procura de coisas com identidade, que contem uma história, que tenham alma por dentro e acima de tudo que se saiba a sua origem.

Já nadas sozinha de um lado ao outro da piscina? 
Não :) Mas continuo a trabalhar arduamente para realizar os meus sonhos.

Podem encontrá-la aqui: 
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