#43 Raquel Pais

03 julho, 2017


Raquel decidiu resgatar a capucha do baú dos avós e relançar esta tradicional capa portuguesa numa versão urbana e cosmopolita. Estudou na Central Saint Martins em Londres e trabalhou em São Paulo, Nova Iorque e Buenos Aires antes de regressar a Portugal para lançar a À Capucha! e a Estufa, um estúdio de design de comunicação gerido no feminino. 

Se este fosse o teu perfil de uma rede social o que escreverias na área 'Sobre ti’?
"I arise in the morning torn between a desire to improve the world and a desire to enjoy the world". E.B. White

Com os 'novos artesãos' os saberes tradicionais são como a Capucha: à prova de tudo? 
De uma certa forma essa é a verdadeira essência dos saberes tradicionais: a de resistirem por séculos porque foram sendo necessários e portanto praticados e aperfeiçoados ao longo do tempo. Por outro lado, acho que os saberes tradicionais têm de ser cuidados, preservados e reinventados, porque senão no mundo acelerado de hoje, que evolui e inventa a um ritmo nunca antes visto, correm o risco de desaparecer. Não porque deixam de ter sentido mas porque não são usados e valorizados da forma que poderiam ser. 
Eu não sou nada defensora de manter o “artesanato” por manter, acho que o importante é olharmos paro o ofício, perceber se há um saber especial ali e se ele pode continuar a ser usado para criar objetos relevantes. Se pode, então há que repensar que objetos e de que forma os colocamos no mercado, se não há também não faz mal, regista-se, faz-se arquivo e fica no museu. 
O que quero dizer com isto é que não faz sentido continuarmos a fazer potes de barro se ninguém precisa de potes de barro. O valor do saber tradicional não está no pote, mas na maneira de trabalhar o barro de forma a fazer o pote, e essa maneira de trabalhar pode ser usada para fazer muitos outros objetos além de potes. É isso que é importante preservar: o saber-fazer do pote.

A Capucha tem necessidade de vencer a sasonalidade? 
Essa é uma discussão que frequentemente temos entre nós: se a À Capucha! deveria criar objetos para o ano todo, e claro que isso seria mais rentável. Por outro lado, a capucha não é necessariamente um objeto apenas de Inverno, já que por um lado o burel é termo-regulador; por outro a capucha é uma capa, uma peça mais leve que um casaco, mais arejada, portanto podemos usar uma capucha entre o Outono e a Primavera.
Mas de qualquer forma gostaríamos muito de conseguir diversificar para outros produtos que acompanhem as pessoas ao longo das estações, porque esse ciclo também é muito típico da manufatura artesanal, e nós adoraríamos explorar outros materiais, outras técnicas e outras peças.

Londres, Nova Iorque, Buenos Aires, São Paulo. Há vontade de voltar a sair ou apenas de fazer a À Capucha! sair? 
Neste momento não me imagino a sair de forma definitiva, ou seja, para ir viver fora de Portugal novamente. Gostava de encontrar um equilíbrio entre trabalho e descanso que me permitisse viajar mais, quer para levar a À Capucha! a alguns sítios onde tenho a certeza que ela faria sucesso, como para conhecer lugares novos. Viajar é um dos maiores prazeres que tenho na vida.

És uma verdadeira apaixonada por Portugal? 
Diria que sim, se bem que é sempre difícil afirmar isso certeiramente quando se trata do nosso país. É como perguntar se gostas do teu sangue. Está de tal maneira entranhado naquilo que eu sou que me é difícil avaliar.
Mas foi o lugar para o qual decidi voltar, acho que apesar de todos os problemas que temos, conseguimos, em Portugal, ter uma qualidade de vida incrível, somos uns privilegiados; basta olhar para o clima, a paz, a geografia, as pessoas, a história, a gastronomia,… acho difícil não nos apaixonarmos.

Qual é a sensação de trazer 10 séculos às costas? 
É uma responsabilidade que nós encaramos a sério. Uma das grandes preocupações na Estufa (que é o nosso estúdio de design que pensa e concretiza a À Capucha!) é a de nos mantermos fiéis a essa herança. Não queremos viver no passado, nem cristalizar o objeto, mas também acreditamos que só faz sentido criar capuchas se elas mantiverem a sua identidade, e não acabarem numa capa com um “lamiré” de capucha. Por isso nos interessa tanto manter a forma manual de trabalhar o burel e as características singulares da capucha enquanto agasalho tradicional que é altamente funcional e que resistiu os tais 10 séculos…

Podem encontrá-la aqui: 
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