#41 Rita Daniel

01 julho, 2017


Emigrante de uma nova geração, Rita começou por São Paulo, esteve três anos em Barcelona e três em Zurique. Hoje está de volta a Portugal e às origens com a Volta, oficina criativa aberta a todos os que queiram ter contacto com trabalhos manuais, longe das novas tecnologias, da serigrafia à marcenaria, da encadernação ao têxtil.

Se este fosse o teu perfil de uma qualquer rede social o que escreverias na área 'Sobre ti’?
Esta é sem dúvida aquela pergunta que nunca sou eu a responder, ainda me lembro que quando fiz o meu primeiro C.V., fui pedir ao meu irmão para enumerar algumas caraterísticas minhas. O que é certo é que ele disse que eu era metódica, até hoje não percebi bem porquê... =) O que eu posso dizer sobre mim é que sou daquelas pessoas que precisa de estímulos, novos desafios e estar constantemente a aprender e procurar novos meios de concretizar as ideias que vou tendo. Se não sei algo, procuro, leio, experimento, mesmo que não corra lá muito bem, já fiquei com umas noções de como se faz, e de certo que elas me serão válidas para o próximo ciclo do ‘procurar, ler, experimentar’. Geralmente canso-me rápido com as rotinas do dia-a-dia, mas tenho dois cães. Sou persistente mas impaciente, também um bocado teimosa e detesto faltas de justiça. A melhor caraterística que herdei da minha curta estadia no Brasil é ser humilde, lembro-me disso todos os dias.

São Paulo, Barcelona e Zurique. Trouxeste contigo uma Rita diferente na bagagem? 
Diferente não é bem a palavra certa, mas mais real. Quando vamos para fora e deixamos o que conhecemos, aprendemos a ser mais nós. Temos de aprender a conviver connosco próprios, e acabamos por nos conhecer muito melhor. É engraçado ver o nomes destas três cidades numa só frase, tão coladas umas às outras. Porque são sem dúvida três modos muito diferentes de viver, de respeitar e de cuidar. Se por um lado em São Paulo me senti muito próxima das pessoas, em Zurique senti-me muito mais próxima da Humanidade. São realidades tão diferentes que é mesmo difícil explicá-las num texto. O que é certo é que cada uma delas me marcou, me moldou e me tornou a pessoa que sou hoje. A humildade que mencionava acima vem de São Paulo, a descomplexidade que tento ter em tudo o que vejo ou faço vem de Barcelona e o ser persistente e detestar faltas de justiça vem de Zurique. 

Ir para fora fez-te ter vontade de criar cá dentro? 
Mais do que criar é permitir criar. Ter os meios para fazer com que isso aconteça é, para mim, mais importante que criar em si mesmo. Lá fora tinha meios para criar e, por isso, criava. Aqui sempre senti dificuldade em encontrar um lugar onde pudesse fazer ‘bagunça’ à vontade, mais do que aquela que já fazia lá em casa. Enquanto estive lá fora frequentei lugares onde podia ir fazer aquilo que implicava uma logística e requeria equipamentos que em casa não tinha. Aquilo que sempre procurei cá, encontrei em Zurique. Por isso só havia uma coisa a fazer. Criar o Volta em Lisboa fez com que eu possa finalmente criar a tempo inteiro mas, e melhor que isso, é que todos os que sempre procuraram um lugar com estas caraterísticas agora podem criar também. 

O Volta é um espaço onde as novas tecnologias ficam à porta. As pessoas sentem necessidade de deixar os teclados e criar com as mãos? 
Apesar de o 'criar com as mãos' ser maioritariamente entendido como ‘manualidades’ essa ação comporta muito mais em si mesmo. Quando se cria com as mãos sentimos a temperatura, a rigidez, a rugosidade ou o peso dos materiais. São também essas sensações  que fazem com que os nossos estímulos criativos se ativem. Mesmo quem ache que não tem jeito para estas coisas, no fundo, o facto de se permitir experienciar estas sensações faz com que ganhe aptidões que antes desconhecia. Por isso incentivamos a criar com as mãos, a sujar-se sem restrições e a passar tempo valioso a criar com os outros. A grande parte do nosso público é criativo, mas as tarefas que desempenham no dia-a-dia são quase todas digitais. Por isso, é um alívio chegar ao Volta e não avistar nenhum computador. Aqui as máquinas são outras. 

A arquitetura ainda tem volta? 
A arquitetura está presente em tudo aquilo que vemos. É um cliché mas é verdade. Todos os pequenos ou grandes projetos que desenvolvemos aqui no Volta assentam numa base de conceptualização, estudo prévio e projeto de execução, típicos de qualquer encadeamento de fases em arquitetura. Trabalhei em arquitetura desde que saí da faculdade, mas além de ter trabalhado em fases muito distintas umas das outras, e em ambientes de trabalho muito diferentes uns dos outros, também fui fazendo pausas para explorar outros interesses. E uma coisa que percebi no meio de tudo isto foi que precisava de pôr mais as mãos na massa, de ter um dia-a-dia mais ativo e versátil. 

A vida dá muitas voltas mas saíres de Portugal agora só para férias? 
Agora mesmo nem de férias. O meu pai sempre me disse para não abrir o meu negócio, e que não há nada como trabalhar por conta de outrém. Ele que era empresário pelo vistos sabia bem do que falava. No entanto, como sou teimosa e persistente fiz exatamente o oposto do que ele me recomendou, e por isso, 6 meses depois do Volta ter aberto, não há previsão para trabalhar menos de doze horas por dia, seis dias por semana durante os próximos meses. Voltar não fez parte dos meus planos por muitos anos, mas hoje acho que faltava um motivo de força maior. O Volta foi o motivo que criei para regressar a Lisboa.

Podem encontrá-la aqui: 
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