#40 Catarina Carreiras & Carolina Cantante

30 junho, 2017


Catarina e Carolina conheceram-se na Universidade mas terminado o curso rumaram a cantos opostos do globo. Carolina foi para a Índia trabalha num projeto de arquitetura social e Catarina para Itália, para a Fabrica, o centro de pesquisa em comunicação da Benetton. 
Ainda em países diferentes decidiram trabalhar juntas e, pouco tempo depois, nascia o Studio AH-AH e começava a chegar o merecido reconhecimento. Em 2015 venceram o ADC Young Guns, reputado prémio internacional atribuído pelo Art Directors Club a jovens talentos até 30 anos.

Se este fosse o vosso perfil de uma qualquer rede social o que escreveriam na área 'Sobre ti’?
Duas mulheres. Um atelier. Muita parvoíce. Algum design.

Criar o Studio em plena crise, com uma visão internacional, um conceito que não encaixava em agência publicitária nem no típico atelier de design, e gerido por duas jovens designers, foi uma aposta arriscada?
Foi completamente inconsciente. Não sabíamos bem ao que íamos, mas tínhamos a certeza de que não se encaixava muito bem no mercado português. Na verdade, o timming foi mais que perfeito. Na altura houve muita gente a começar empresas novas, sem dinheiro para investir na típica agência. Éramos duas miúdas, tivemos alguma dificuldade em que nos levassem a sério. Mas no espaço de um ano, projeto a projeto, conseguimos construir um portfólio de que nos orgulhávamos e que refletia muito bem quem éramos, que era o objetivo inicial. Depois tivemos tempo para ir refinando o conceito, percebendo exatamente onde e como aplicar o know how que tínhamos ganho a trabalhar além fronteiras. Somos quase um “atelier-boutique”, com uma visão muito própria sobre como comunicar um projeto, mas na verdade demorámos algum tempo a assumirmos isso, sem medos.

Trabalham de Portugal para o mundo e o mundo está com os olhos em Portugal. É mais fácil venderem ideias para fora?
Nos últimos dois anos 80% dos nosso clientes vinham de fora. Contactavam-nos via email e, verdade seja dita, como vinham pelo portfólio tornavam o processo criativo muito mais fluído do que alguns clientes nacionais. Não nos conheciam, mas reconheciam no nosso trabalho e na nossa atitude os ingredientes certos para pôr as mãos no projeto deles. E este voto de confiança não tem preço. É o melhor “trigger” criativo. Contudo, de há uns meses para cá, muita coisa mudou. Continuamos a ter vários clientes de fora, mas agora também temos muitos clientes estrangeiros a viver em Portugal que procuram uma abordagem diferente. Ou portugueses que viveram muitos anos fora e voltam com uma outra perspetiva do que pode ser a comunicação de uma marca.

Vencerem o ADC Young Guns, já ganho no passado por nomes sonantes como Sagmeister, foi o momento mais 'AH-HA' até hoje? 
Já tivemos vários momentos “ah!” E outros mais “haaaa” — e o cubinho dos Young Guns soube-nos muito bem. Principalmente no ano em que foi ganho. No início de 2015 fomos as duas mães de "primeira leva", e com apenas dois meses de diferença. Escusado será dizer que foi o caos instalado — entre fraldas e deadlines, mal conseguíamos manter tudo no ar... E pela primeira vez sentimos na pele o quão difícil é equilibrar todos os aspetos do complexo que é sermos duas mulheres. Foi nesse momento de pânico que o Young Guns aterrou. E deu-nos a certeza de que andávamos a fazer algumas coisas interessantes — foi o impulso que precisávamos para continuar com a mesma energia do pré parto. Mas não somos muito de ligar a prémios... há outros momentos ah-ha mais importantes.

O design português é cada vez mais reconhecido internacionalmente mas por cá as grandes empresas parecem ainda não querer dar muito espaço aos nossos. Sentem isso?
Sentimos mais que as empresas portuguesas muitas vezes não procuram alternativas. Mas isto está a mudar, já temos empresas grandes, conhecidas, que percebem que faz mais sentido desenvolver determinado tipo de projetos conosco, deixando outros para as agências com que sempre trabalharam. E este é o equilíbrio ideal, porque na verdade há espaço para todos.

As mulheres estão cada vez mais a assumir papéis de destaque no design. Um estúdio gerido por duas mulheres ainda é um desafio?
É sim, mas mais no ping pong que é jogarmos entre objetivos pessoais e profissionais. Acho que hoje em dia qualquer cliente nos respeita da mesma forma que respeitaria um homem. E isto é ótimo. Aliás, acho que a sensibilidade feminina traz para um projeto muitas coisas que o pragmatismo masculino deixa de lado, e os nosso clientes acabam por reconhecer isso. Contudo ainda vivemos numa sociedade moldada à antiga, em que é quase um salto kamikaze uma mulher querer investir também na vida profissional. 
Queremos ser tudo: mães, mulheres, boas profissionais, e não descurar nenhum destes aspetos em nenhum segundo. E isso põe um nível de pressão muito alto no nosso dia a dia, a que se calhar os homens não respondem tanto. Arranjar espaço para nos encontrarmos como mulheres, nos instigarmos a sermos mais “out of the box" e termos sempre ideias na ponta de língua — no meio de rotinas, filhos e deadlines, de menos horas de trabalho, e menos horas de sono — é o maior dos desafios.

Podem encontrá-las aqui: 
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