#20 Inês de Oliveira

10 junho, 2017


Inês soube desde cedo que era nas artes que estava o seu futuro e entre a pintura, o desenho e a fotografia descobriu na moda a sua verdadeira vocação. Inês é a designer por detrás da IMAUVE, uma marca pensada para a mulher contemporânea de expressão criativa minimalista e tecidos naturais. 

Se este fosse o teu perfil de uma qualquer rede social o que escreverias na área 'Sobre ti’?
Provavelmente não escreveria nada, para dar aso à curiosidade. Mas se fosse um campo de preenchimento obrigatório, diria que sou uma apaixonada. Pelos outros, por criar, pela IMAUVE. 

Ver a tua etiqueta na roupa de alguém que vai na rua sempre foi um objetivo? 
Sim, desde pequena que sempre soube que ia enveredar por uma área artística, embora não soubesse ao certo qual. A minha paixão pelas artes começou pela pintura e desenho e mais tarde evoluiu para outros caminhos como a moda, fotografia, comunicação. Sempre bebi de todos estes mundos, mas a moda acabou por se sobrepor. Como designer de moda, ter a minha própria marca era uma necessidade muito intrínseca. Nada me dá mais prazer do que ver uma peça minha vestida em alguém. 

A tua Debut Collection baseia-se na obra do artista plástico Frank Stella. Vês a moda como uma manifestação artística? 
Claro. É uma expressão do ser humano como qualquer outra manifestação artística. Transmite muitas mensagens, umas mais claras que outras, constrói uma identidade e conta a história de quem somos a quem nunca nos viu antes. 
Apesar disto, eu, como criadora, tenho uma abordagem mais prática sobre a moda. Penso que deve, acima de tudo, servir um propósito que é o de proporcionar conforto físico e social - são máximas na minha vida e na minha marca. Por isso as peças que desenho são sempre "vestíveis" e feitas para uma mulher real, com desafios reais - embora evoque um ar um pouco etéreo porque todos gostamos de sonhar. Quando estava na faculdade desenvolvia projetos muito mais conceptuais, porque estava numa fase experimental. Hoje, foco-me em criar peças que na sua simplicidade, estimulem desejo nas mulheres que visto e que elas pensem "I have to have". A arte continua a ter um papel fundamental no meio de tudo isto porque é quase sempre onde vou buscar inspiração. 

Como é o teu processo criativo? Há esboços a acumular nas gavetas?
O processo criativo começa quase sempre pelo conceito. As minhas coleções são sustentadas por uma base teórica, mergulho numa extensa pesquisa do tema  que é o que estabelece o fio condutor  e daí surge a paleta de cores e os primeiros esboços. Às vezes começo pelos tecidos e desenho já a pensar nos materiais que quero usar (quase sempre naturais: seda, algodão, linho). Depois segue-se a edição, os moldes, os protótipos, a campanha  que é a parte mais gira, onde se cria a imagem da coleção  e por fim a produção que é o que vemos nas lojas. Sou capaz de produzir 300 esboços de peças por coleção, por isso sim, as gavetas já não fecham. 

A indústria têxtil nacional consegue acompanhar os desafios dos novos criadores? 
Não. A indústria têxtil nacional está focada na exportação, e faz bem. 
Os novos criadores geralmente produzem quantidades pequenas, porque estão a testar o mercado, e a dar um pequeno passo num chão de vidro, muitos sem grande capacidade de investimento e com receio de criar stock que depois não consigam escoar. Por seu lado, como o nome indica, "indústria" pressupõe processos industriais estandardizados que exigem quantidades cujos mínimos rondam as 100/500 unidades por cor e modelo. 
Só depois de muitos "nãos" é que se percebe esta dinâmica de desencontro. 

Na gastronomia o slow food, na moda o slow fashion. As mulheres já estão cansadas da moda "fast food"? 
Espero que sim. Nunca fui muito adepta de roupa descartável. Tenho uma camisola de malha que era da minha mãe quando estava grávida de mim. Não tem um borboto. Acredito que a moda, precisamente por ser cíclica, tem este poder de intemporalidade. Uma peça boa é um investimento que equivale a 5 peças más. E por más não me refiro só à fraca qualidade e composição, mas também às condições em que são produzidas e por quem. E se antigamente, se fechava os olhos a essas coisas, hoje há uma maior consciencialização, há quem valorize o trabalho árduo dos criadores, o perfeccionismo dos artesãos, os materiais nobres, o que é bem feito, o que é bom, o que é nosso. Já se olha mais para as etiquetas à procura do "made in" e já há quem se arrepie com 100% poliéster. 
Para essas pessoas, estou cá eu.

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