#15 Raquel Caldevilla

05 junho, 2017


Blogger, cantora, escritora, psicóloga, 'crocheteer', empreendedora... não necessariamente por esta ordem. Raquel tem um passado ligado à psicologia e um presente dedicado às artes e à criatividade. É difícil não sorrir com a sua escrita ou com os amigurumi que nascem das suas mãos.

Se este fosse o teu perfil de uma qualquer rede social o que escreverias na área 'Sobre ti'?
Os meus amigos (e a minha mãe) dizem-me que eu não sou boa a vender-me e, por isso, acho que não sei falar sobre mim. Mas podemos tentar! 
Uma cantora com a voz doce e a música determinante como a vontade, uma escritora de memórias e inspirações, uma sonhadora com os pés no chão. 

Começaste com um blog mas entretanto fomos acompanhando uma Raquel envolvida em mais projetos do que aqueles que podemos contar pelos dedos. És uma criativa hiperativa? 
Agora que me fazes pensar nisso, talvez. Mas acho que aprendi, com o tempo, a lidar melhor com o silêncio, se bem que sempre foi algo que me fez confusão. Por essa razão, tenho de ter sempre algo a fazer e, quando bloqueio dum lado (por exemplo na escrita), passo para o crochet e assim sucessivamente. Gosto muito, mas mesmo muito de criar. 
No entanto, e graças à doença que tenho (Artrite Psoriática), tenho necessidade de desligar às vezes e isolar-me um pouco do Mundo. É com isso que me debato mais vezes, com essa obrigatoriedade em parar. Por isso é que, quando posso, sou uma criativa hiperativa. É para compensar! ;)

Depois da Raquel blogger agora temos uma Raquel vlogger. A imagem vale mais que ajuda às mil palavras?
Acho que são coisas diferentes. As palavras escritas têm um peso muito grande e, por vezes, as que deixava no meu blog adquiriam um valor muito maior do que eram na realidade. Todos temos vozes diferentes e isso também leva a interpretações diferentes. Por isso, sinto que muitas vezes aquilo que escrevia nem sempre tinha o valor que eu tinha dado inicialmente. Essa é, para mim, a magia da escrita, porque tu podes dar o valor que quiseres ao que eu escrevi. Mas também pode gerar confusões ou interpretações menos acertadas... E eu senti que precisava de criar algo mais leve e divertido, como eu sou diariamente, "na vida real".
Por outro lado, quando eu escrevo algo tenho sempre a tendência a editar, a reescrever e a acertar as palavras. Em vídeo, apesar de haver sempre a edição, não podes mudar algo que disseste, por isso é mais cru e mais direto. E essa é, para mim, a vantagem de fazer os meus vídeos.
Digamos que eu tenho duas "personas", uma que escreve o que sente e que permite que os que lêem tenham as suas próprias interpretações, e a Bilinha, que é a "alcunha" que os meus amigos me dão e que é uma personagem mais divertida. Acho que me faltava essa vertente no meu blog e por isso decidi criar o canal do Youtube e mostrar um bocadinho mais de mim.

O teu primeiro livro '12' saiu em 2014 e é uma compilação de contos sobre pessoas reais. Experimentares a ficção poderá ser uma possibilidade no futuro ou a realidade já é demasiado "ficcionada" para termos que inventar muito mais?
Na verdade, o 12 fala sobre pessoas reais, mas é a minha perspectiva dessas pessoas, ou seja, é a minha realidade. Muitas dessas personagens do meu livro não se baseiam numa pessoa só, mas são uma soma de várias pessoas que fui conhecendo. Por isso e, apesar de ser um livro sobre pessoas reais, há sempre uma certa parte de ficção nas minhas palavras.
No meu primeiro livro, eu quis focar-me naquilo que conhecia, não só porque me era mais fácil (que às vezes nem foi assim tão fácil), mas também porque queria fazer uma pequena homenagem àqueles que passam (ou passaram) pela minha vida. Não ponho de parte escrever uma ficção, mas confesso que essa tem sido a minha maior dificuldade para o segundo livro, que estou a escrever há 3 anos e não há meio de se desenrolar. Gostava de ser mais imaginativa, mas, ao mesmo tempo, tenho os pés bem assentes no chão e acho que prefiro a realidade, crua e sincera.

Plantar uma árvore, check. Escrever um livro, check. Ter um filho, não mas obrigada. A ideia de ser mulher e não querer ter filhos é, infelizmente, ainda um tabu em Portugal. Sentiste-te julgada por teres exposto a tua opção?
Sim, não querer ser mãe é um assunto hiper mega tabu em Portugal, essencialmente porque vivemos numa sociedade ainda muito machista e que acha que as mulheres são menos mulheres se não são mães. Sinceramente, pensei que iria ser muito mais julgada por ter exposto a minha opinião, mas a verdade é que não fui. Não sei se foi porque expus a minha situação duma maneira clara, objetiva e inteligente, não sei se foi porque as pessoas acharam que eu ainda era nova e que podia mudar de ideias. Ouvi bastante isso, que um dia ainda vou mudar de ideias. E que esperavam que não fosse tarde demais e me arrependesse.
O facto é que achei que os julgamentos iam ser mais cheios e algo insultuosos e não foram, muito pelo contrário. Recebi vários emails e mensagens de mulheres, mais velhas e mais novas, que se identificavam comigo e que me acarinharam muito. Mulheres sem filhos, por escolha e por questões de saúde. Mulheres que não queriam ter filhos, que tiveram e que isso mudou completamente a vida delas para melhor. Mulheres que não queriam ter filhos, que cederam às inúmeras pressões (seja dos pais ou da própria sociedade), que tiveram filhos e que se arrependem. Mulheres que sempre quiseram ter filhos, que tiveram e que se arrependem também, mas que não têm coragem de assumir. Mulheres que sempre sonharam em ser mães e que não puderam ou não conseguiram. Mulheres que são mães e é, para elas, a maior felicidade do Mundo. Todo o tipo de mulheres e até mesmo homens e pais, que me acarinharam muito.
Sobre este assunto, acho mesmo que se tens as ideias no sítio e se sabes explicar o que te vai na alma, ninguém te vai julgar. E, se julgarem, o problema não é teu, é daqueles que o decidem fazer. Porque eu tenho a certeza que muitos o fizeram, mas não tiveram coragem de falar comigo. E, muito sinceramente, é um azedume que apenas eles guardam.
Não é obrigatório para ninguém falar sobre o assunto, porque é algo que te diz respeito a ti e à pessoa que tens ao teu lado. É só isso. Eu senti necessidade de falar sobre o assunto porque me foi pedido e, muito sinceramente, deixei-me levar. Ainda há pouca gente a querer dar a cara, com medo de represálias futuras, mas, felizmente, posso dizer-te que não foi o meu caso.
A mim fez-me bem, fez-me resolver coisas com a minha família, principalmente com os meus pais, que compreendo que quisessem muito ser avós, algo que, como sou filha única, dependia unicamente de mim. Mas ter ido à Fátima Lopes foi a gota de água para os meus pais, que nunca mais me chatearam com o assunto. Pelo contrário, agora até me defendem se alguém lhes (ou me) perguntar diretamente. ;)

Escritora, cantora e agora o croché. Amanhã quando acordarmos e formos espreitar o teu instagram o que mais poderemos encontrar associado ao teu perfil?
Gosto muito de fotografar e de contar histórias com as imagens. Gosto muito de animais, mesmo, mesmo muito. Talvez associe os dois amores? Não faço a menor ideia, mas prometo não ficar parada. :)

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