#12 Filipa Lacerda

02 junho, 2017


Nasceu em Maputo, estudou em Madrid, trabalha no Porto. Filipa Lacerda é arquiteta, faz voluntariado e dá asas à criatividade em ilustrações assinadas pelo seu alter-ego Missphips. 
A caneta raramente lhe sai da mão e usa o desenho como forma de escapar ao tédio e melancolia que a realidade lhe provoca. 

Se este fosse o teu perfil de uma qualquer rede social o que escreverias na área 'Sobre ti’?
"Euseilá…"
É sempre um pequeno drama escrever um "sobre mim", tenho a sensação que todos os dias acordo uma pessoa diferente e que quando voltar a ler isto terei vontade de mudar o que estou a escrever. Tenho um pé no Porto e outro em Maputo e nunca sei bem onde quero estar, adoro viajar e por mim passaria a vida sempre a passear de um lado para o outro. Sou arquiteta, designer e ilustradora e nos tempos livres ajudo a organizar o TEDxUniversityofPorto e envolvo-me em diferentes tipos de trabalho voluntário.
Tenho o cão mais apaixonante do mundo e uma família e um namorado muito especiais que amo infinitamente. Emociono-me facilmente. Mas acima de tudo, acho que tento combater os meus demónios internos procurando fazer a diferença na vida das pessoas que me rodeiam, através do meu trabalho ou de pequenos gestos no dia-a-dia, na esperança de deixar este mundo um pouco melhor do que encontrei.

A ilustração é a tua fuga aos momentos aborrecidos do dia. Já deste por ti a acrescentares ‘king kongs’ nos edifícios que projetas?
Não necessariamente king kongs mas sem dúvidas que as minhas folhas de trabalho são preenchidas com muitos desenhos. Porque não é necessariamente só uma fuga aos momentos aborrecidos mas um lugar, de muito fácil acesso, ao qual sou transportada sempre que me deixo distrair um pouco. Tive uma professora de projeto que às vezes mostrava as minhas folhas de processo ao resto da turma, tinha plantas, cortes, alçados, notas, poemas e desenhos, tudo misturado. Para mim não há nada mais pessoal do que o processo criativo e tudo o que nos vai na alma nos influencia a chegar às soluções. As nossas emoções falam e influenciam o nosso trabalho. A arquitetura não pode nem deve ser algo completamente racional. Para isso existem os engenheiros.

Algum dia a ilustração poderá ser o teu full time job?
Uma parte de mim gostava que assim fosse. Outra parte nem tanto. A ilustração não deixa de ser o meu refúgio, um lugar para onde vou para fugir um pouco da realidade. Se conseguisse trabalhar e constantemente sentir esse poder terapêutico seria incrível, mas tenho receio de tornar algo tão prazeroso numa obrigação e estragar um pouco a magia da coisa. Há também outro fator que tem bastante peso que é a necessidade que eu tenho de achar que estou a contribuir para um bem maior e de me ocupar e que me leva a ser voluntária em várias associações e tentar dar o meu contributo de formas diversas, duvido que ilustração consiga preencher essa parte na totalidade, por isso, mesmo que passasse a focar mais tempo na ilustração, continuaria sempre a ter de me ocupar com outras coisas.

És feminista ou só no que diz respeito ao alfabeto?
Se ser feminista for “defender a igualdade de direitos entre mulheres e homens”, sim. Sou. Não quero apoiar injustiças de qualquer tipo e as que são aplicadas às mulheres não são uma exceção. Somos todos pessoas, merecemos todos ser igualmente livres e ter acesso às mesmas oportunidades para sermos felizes. E isto aplica-se também a religiões, etnias, classes sociais, clubes de futebol, etc.
O alfabeto, mais do que mostrar mulheres livres e independentes, tenta também desmistificar o dia a dia das raparigas e como muitas se sentem realmente. Tirar as mulheres de uns pedestais que às vezes são quase gaiolas. Não temos de ser perfeitas. Não temos de ser iguais umas às outras. Temos de ser felizes e fortes o suficiente para sermos iguais a nós próprias.

Declamar “cãotigas de amor” é a tua veia poética no seu melhor ou o “cãocioneiro” poderá vir a ter outros animais em destaque?
As “cãotigas de amor” começaram com uma só ilustração para o site de uma amiga, que logo virou uma “cãoleção”. É inspirado no “cãopêndio” e de momento estou a tentar juntar alguns desenhos para criar, se não um livro, uma pequena fanzine que tenciono publicar brevemente — editoras se estiverem a ler e ficarem interessadas, podem contactar-me. Mas acho que vou ficar por aí. Seria engraçado ter mais animais, mas por enquanto dedicarei todas as “cãotigas de amor” ao meu cão, de quem tenho muitas saudades.

Todas as histórias têm dois lados e um deles é visual. É mais fácil contar histórias e partilhar ideias visualmente?
Para mim sempre foi. E é engraçado que foi só no momento que tive uma aula de “visual sensemaking” durante o mestrado que tive essa epifania, ou simplesmente a consciencialização de algo tão óbvio e tão presente na minha vida — os desenhos são de facto uma das melhores ferramentas para não só contar histórias e partilhar ideias como para chegar a novas soluções. E eu tinha estado a usar o desenho desde criança sem me aperceber da importância que tinha. Desde mapas mentais a livros ilustrados, os desenhos ajudam-nos a visualizar conceitos e permitir que as pessoas estejam todas dentro do mesmo contexto. Mesmo dentro de empresas que não são nada criativas, conseguimos retirar muita informação sobre problemas a nível da organização e estratégia empresarial que podem ser melhorados e reestruturados através de esquemas visuais e desenhos simples. Adoro mostrar às pessoas a importância que isto tem e de lembrá-las que é tão fácil rabiscar sem medos e o quanto isso nos pode ajudar a todos no dia-a-dia.

Podem encontrá-la aqui: 
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