#10 Carolina Reis

31 maio, 2017


Começou por ser economista e trabalhar na Banca mas a criatividade falou mais alto e pouco depois trocou a calculadora pelo photoshop. Foi para Londres estudar na Shillington College, uma das escolas de Design com melhor reputação a nível internacional, e regressou agora a casa para iniciar a sua carreira. A reconversão profissional é fácil? Nem sempre, mas Carolina faz o que gosta.

Se este fosse o teu perfil de uma qualquer rede social o que escreverias na área 'Sobre ti’?
Depende da rede social, e, para ser franca, depende da minha disposição no dia em que escrever o perfil. Um perfil mais informativo e linear seria:
“Carolina Reis, designer gráfica a viver em Lisboa. Licenciada em Economia na Universidade Católica, trabalhou durante vários anos na Banca - na área internacional, e também na área de Research Económico. A vontade de fazer um trabalho mais criativo tornou-se progressivamente mais forte, e em 2015 deixou a Banca e foi estudar Design Gráfico em Shillington, Londres. Atualmente estuda web design na ETIC."
Também tenho visto alguns perfis em que as pessoas enumeram 3 ou 4 coisas que gostam e outras tantas que não gostam, o que não deixa de ser informativo também, e mais divertido. Por exemplo:
"Gosta de: binge-watching, minimalismo que não seja aborrecido e previsível, sundaes do McDonald's, passear com a sua Nikon. Detesta: favas, conversa de circunstância sobre o tempo e outros temas do género, trabalhar de forma desorganizada.”

Quando é que as equações deixaram de fazer sentido?
As equações já não estão na minha vida há muitos anos, eu diria desde 2007, quando deixei a faculdade. Na Universidade costumava dizer-se que o curso de Gestão é mais "literal", e o de Economia é mais geral, ou seja aprendes a raciocinar de forma bastante abstrata, e podes aplicar isso em vários trabalhos diferentes.
Nos trabalhos que tive “no mundo real", aprendi sempre coisas novas e que tinham pouco a ver com equações. Não sei se o meu curso ajudou, mas gosto de pensar que sim, ainda que de forma indireta, mesmo agora. Aliás, apesar de aparentemente não terem nada a ver, eu acho que a Economia e o Design Gráfico têm bastantes semelhanças, se tivermos alguma abertura de espírito. Ambas as disciplinas pressupõem um interesse e curiosidade pelo mundo à nossa volta. Ambas envolvem pensamento lógico e focado, mas criativo. Ambas podem ser muito aborrecidas e previsíveis, mas se quiseres fazer algo especial e novo, podem ser desafiantes e dar um grande sentimento de realização. É frequente as pessoas acharem que sabem tudo sobre ambas, mesmo que não seja verdade. E dentro de ambos os campos, há pessoas que fazem trabalhos completamente diferentes, e de maneiras diferentes, e que discordam profundamente uns dos outros.

Desenhar cadernos ou desenhar em cadernos. Em que fase estás neste momento?
A minha fase de desenhar cadernos aconteceu há um ano. Tinha acabado de fazer o curso em Londres, e entre alguns trabalhos freelance que ia fazendo, tinha tempo e vontade para fazer o que os estúdios costumam chamar de projetos “self-initiated”, em que és tu que defines os objetivos e o que queres fazer. Por essa altura tive uma fase muito intensa de anotar ideias e fazer experiências. Daí nasceu o projeto 'Bom dia', um conjunto de designs simples que vêm a vida de forma positiva, aplicados a cadernos feitos por mim. Esta era a premissa inicial, mas depois aconteceu uma coisa que eu achei muito interessante: várias pessoas contactaram-me para fazer cadernos ou mini-livros customizados, com ideias diferentes e que tinham a ver com coisas que lhes eram muitíssimo pessoais. Este é um projeto pequeno, sem grandes pretensões, mas conseguir fazer algo material tão carregado de significado para alguém deu-me um grande sentido de realização e de que podia fazer coisas que realmente aportam valor.
O projeto 'Bom dia' ainda está vivo, mas digamos que está em piloto automático. Neste momento estou muito interessada no mundo digital e em todas as coisas espetaculares que se têm feito e que se podem fazer nesta área. Acabei de entrar um bocadinho no coding, e fiquei também com vontade de saber mais.

Estudar design em Londres abre portas em Portugal?
Eu diria que não necessariamente. Acho que o perfil mais apreciado é aquele que tenha os todos os checks certos - licenciatura na área, experiência numa agência de publicidade, menos de 30 anos, etc. E acho perfeitamente normal que assim seja.
O meu perfil é bem fora do habitual, e isso às vezes gera algum interesse, mas às vezes também é perspetivado como estranho, e até com alguma desconfiança.
Por um lado há cada vez mais pessoas com um percurso fora do normal, e pessoas que mudam de rumo profissional por vocação/ paixão. Mas também há aquela ideia do millennial que não quer fazer nada, e que quer que tudo de bom lhe seja entregue de bandeja porque acha que é especial. Quem deixa um trabalho mais seguro e convencional para se dedicar a outras coisas, para arriscar e trabalhar a partir de casa, vai ter necessariamente que se confrontar com estas questões e definir muito bem para si próprio quem é e quem quer ser.
Não sei se estudar design em Londres abriu portas propriamente, mas eu diria que no meu caso abriu horizontes, e deu-me a conhecer pessoas, maneiras de pensar e influências que eu nunca tinha nem teria conhecido, o que eu acho que tem um valor imenso.

É fácil justificar um orçamento de design a alguém com um primo ou sobrinho que faria o mesmo de graça porque já fez uns memes no photoshop?
Não é nada fácil, e eu não quereria ter de justificá-lo se não fosse desde logo óbvio para o meu potencial cliente. Aliás, o sobrinho do cliente até pode fazer um bom trabalho, tanto quanto sei. Tento colocar-me numa posição de humildade nessas situações, mas claro que dou o meu preço - ele pode ser aceite ou não. A situação ideal é trabalhar com pessoas que gostem do que fazes e confiem em ti.
Uma coisa que ouvi toda a minha vida mas só percebi realmente por experiência própria, é que quanto maior o valor que puseres no teu trabalho, mais os outros o valorizam também. Além disso, isso exige de ti que estejas à altura do que estás a cobrar e ajuda a motivar-te a superares-te, a dares aquele extra mile e teres o prazer de ver que ainda deste mais do que era esperado. Uma coisa que aprendi também é que no Design, não podes simplesmente cumprir com o que já se está a espera, senão o resultado vai ser medíocre. Sempre que começo um trabalho, tenho aquele sentimento que quero que seja uma coisa espetacular e surpreendente, que seja mesmo o que aquele projeto precisa. Há também aquela sensação de desafio, que vem com algum receio de não estar à altura. O melhor de tudo é que vais criar uma coisa nova, que não existia, e que ninguém faria igual.

A que instituição financeira farias um rebranding?
É interessante perguntares isso, porque as marcas das instituições financeiras têm mudado muito nos últimos anos, no sentido de não se parecerem tanto com…. marcas de instituições financeiras. Os Bancos querem posicionar-se como uma marca que acompanha a realidade das pessoas e as dificuldades práticas que lhes surgem no dia-a-dia, com serviços que são fáceis de perceber e de utilizar.
Mas respondendo à pergunta (e sem estar a pensar muito se isso é ou não realista!), lembrei-me logo da Banca Monte dei Paschi di Siena - sempre me chamou a atenção o facto de ser o Banco mais antigo do Mundo - e um Banco Italiano fundado no século XV. Acho que isto cria um imaginário forte e interessante, e ainda mais interessante seria pensar como é que um Banco com essa história, e que tem passado por grandes problemas nos últimos anos, se poderia reinventar nos dias de hoje.

Podem encontrá-la aqui: 
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